à deriva no firmamento

as crônicas de ana

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ritornelo


Se vivesse comungando com a rua, o pedaço de endereço em que você habita. Se eu colocasse todas as minhas bandeiras ao sabor do teu vento. Se esquecesse meu rastro, minha assinatura, meu cordão... eu rodaria numa ciranda-zepelim e voltaria sem destino, abraçada numa asa que quebraria na altura exata para me salvar da morte, mas não do julgamento e da vontade.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Azul


Azul, bem azul, era o monto da Santa na sala. Ali tudo era agradecido a Deus. O café quente, coado no fim da tarde chamava visitas que não se incomodavam com a simplicidade ,que era relatada, antes do primeiro passo, pela dona da casa.
Enxadas e facões adornavam e denunciavam de onde vinha o sustento: todos trabalhadores rurais.Todos criados na roça capinando, arando, calculando pela lua, pelos meses, pelas crenças o que se podia plantar.
Meu pai, que nunca viu diferença entre os cafés, me ensinou a ver com beleza e sem distinções aquela realidade. Aquela realidade era a minha, quanto eu compartilhava daquela sala, e entrava pelas narinas e adoçava o esôfago, entrava com aquele liquido negro e eu já podia sentir os calos, o gosto do fumo, o frio das manhãs, as botas pesadas, as costas esfoladas pelo trabalho, os olhos vermelhos sobreviventes das queimadas, o cheiro da lama, o aboio, o cansaço.
Comi nos pratos deles, senti o azedo da farinha caseira, o dendê feito ali mesmo. Senti aquele calor do preparo, o cheiro da lenha, os estalos da madeira, a água natural, a presença dos animais embaixo da mesa, a cólera da criança, a fagulha saltando, o cheiro de fumaça, a mão grossa, as marcas fundas, a testa marcada.
Era meu tudo aquilo, as dores eram minhas, o sorriso deles eram meus, o som dos grilos, as picadas de mosquitos, o calendário de propaganda, os copos desiguais, a falta de luxo, a falta de palavras, a canção, a roupa surrada no varal, a gentileza, a verdade, a gaiola, o suor. E ali dentro eu tinha até o olhar da Santa e a certeza de que existe Deus.

Mudança


Quis trocar todos os moveis de lugar, cada sofá, mesa, tudo para esquecer os movimentos, tudo pra dificultar o balé que ainda existia tatuado nos caminhos da casa.
Aos poucos fui puxando para outras paredes os quadros, arrancando dos pregos aquelas lembranças concretas. Tirei as cadeiras, rodei as caixas de som, recolhi o móbile, desfiz o “l” dos sofás e, depois de toda aquela ciranda, notei como era inútil a minha tentativa.
Minha casa já estava acostumada a aquela presença, estava tudo em estado de espera, não queria mudar, não estava mudado, mas pausado. Por si só a casa voltou a arrumação original, foi empurrando lentamente cada coisa e voltando ao que era, reconstruiu cada espaço , cada lembrança e gritou que não era escolha.
Refiz cada combinação de passos, percorri cada caminho outra vez e eu era como mais um objeto naquela decoração. Como se possuísse um imã, a casa comandava meus pés e os fazia desbravar de novo cada cantinho, cada passado.
A casa me lembrava de coisas que já nem sabia, bradava com rangidos a verdade empoeirada , empurrava minhas costas pelos pregos para que eu não esquecesse que era ali, que as coisas não podiam sair do lugar, que eu não podia tirar as marcas do chão, que a madeira carcomida era minha, e eram as fendas de minha testa que estavam naquelas veias.
Recolhi minha tentativa entre meus braços e meus joelhos. Olhei em cada direção e estava riscado em todos os vãos que havia apenas aquilo: a espera.
Hoje acordei mais sombra , dentro de uma casa que não se despede e não muda, permanece suspensa em uma arrumação ainda não totalmente gasta.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Dela



Ana me cortou o peito quando passou sem ver meu rosto, foi efeito da minha viagem sem avisar. Não falei da viagem por falta de fôlego, mas que arrependimento de não ter dito tudo a Ana, agora tenho que deixar que me corte inteira toda aquela indiferença.
Tentei reagir a falta de olhar de Ana ,mas a falta do olhar de Ana empalideceu minha reação, tentei puxá-la pelos braços, forçar pelo menos um olhar de susto... Não tive forças, meus braços e pernas rasgaram em todos as rotas e cada pensamento de como chegar aos braços de Ana me custava um dedo. Sai de lá mutilada.
Corri a ladeira inteira, passei os olhos por todas as árvores que Ana gostava e voltei para casa. Nada de Ana é Ana sem Ana. Não adianta viver tudo dela sem ela. Preferi lembrar da indiferença, que apesar de me deixar longe, é dela.

Lego


Guardo em mim coisas de criança, não com nostalgia, com calor . Não sou muito da criança que eu era, mas me lembro muito de coisas como “Banco imobiliário”, “pega-varetas” e o LEGO, meu brinquedo favorito... infelizmente, foi sumindo aos poucos e, hoje, já não tenho nenhuma peça. Acho que é isso que acontece com nossa infância, vai sumindo aos poucos. As primeiras peças são imperceptíveis e logo damos de cara com a impossibilidade de brincar: já não temos peças que encaixam... Nossa infância foi embora e só percebemos isso no final e achamos que foi num passe de mágica, entretanto não foi bem assim. Um dia deixamos de colecionar pedras; no outro, escolhemos as roupas e, numa sucessão de desistências, nossa infância se vai.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Jaded


Lavei os cabelos e no ralo, além da espuma e suor, desceram algumas lembranças. Olhei o espelho e não imaginei meu passado se penteando enquanto eu tomava banho. Meus objetos dentro do box estavam desacompanhados e não parecia vazia a prateleira.
Sai, peguei minha toalha de solteira, escovei os dentes e no copo, acompanhando minha escova, estava uma azul, nova,diferente da vermelha que já passava da hora de ser trocada.
Sentei na pia , como em milhões de outras vezes, mas dessa vez foi só enquanto secava os cabelos.
No meu quarto o amontoado de pequenos objetos colecionados em varias visitas já estava reduzido. Preservei algumas coisas que eram importantes por si só, mas o resto morava em uma gaveta, longe dos meus olhos. Antes a desculpa para estarem na gaveta era necessidade de que eu não as visse, não relembrasse de coisas que deveriam ser enterradas, coisas que cortam quando não são mais vividas, quando não são mais nossa. Agora abro a gaveta sem medo, nada saltará para arrebentar meu peito, não olho com desprezo, olho com respeito, mas foi embora todo desespero.
Hoje peguei umas gravuras, prometi colocar em um quadro, prometi ser logo, mas eram apenas gravuras, igual aos pesos de papel, as estrelas, os chaveiros...
Esta tudo blasé, inclusive eu, em relação a estação passada. Não me importa se foi inverno ou verão, só importa agora e agora é primavera.

domingo, 11 de outubro de 2009

Divã

Nunca me falou uma palavra sobre sua vida, nossa conversa se resumia ao que acontecia naquele momento. Sentávamos e, sem cerimônia, desenrolávamos os assuntos mais banais sobre aquele cotidiano.
Além daquele banco mal nos cumprimentávamos. Não havia na verdade nenhuma necessidade de “bom dia” ou algo parecido, estávamos bem com aquela distância. Tudo era incomum, era como nós queríamos ser.
Sabíamos coisas por olhares, mas não existia amizade, era como acontece com pessoas que convivem tanto tempo que descobrem no andar da outra se há tristeza ou não. Mas não era esse nosso caso, sabíamos das tristezas, mas não convivíamos, não aprendemos isso com o tempo ...era nosso, éramos de alguma forma presas de uma mesma corrente natural particular .
Dividíamos isqueiros e músicas, nunca os cigarros e os motivos e assim era nosso divã, esquecíamos os NOSSOS problemas dentro daquela conversa.